fonte: Coruripe.al.gov.br
Texto e Fotos: Anne Rose
Dor que paralisa, que impede de levantar da cama ou seguir a rotina, não deve ser tratada como algo comum. Durante o Março Amarelo, campanha de conscientização sobre a endometriose, a ginecologista obstetra do Centro de Especialidades de Coruripe, Dra. Virgínia Sarmento, faz um alerta direto e necessário: muitas mulheres ainda sofrem em silêncio por não reconhecerem que seus sintomas precisam de atenção.
A endometriose é uma doença crônica, assim como hipertensão ou diabetes e, embora não tenha cura definitiva, possui tratamento e controle. Ela acontece quando um tecido semelhante ao endométrio, que reveste o interior do útero, cresce fora dele, atingindo regiões como ovários, trompas, intestino e bexiga. Esse processo pode provocar inflamações e uma série de sintomas que impactam diretamente a qualidade de vida.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a endometriose afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo, o que representa aproximadamente 190 milhões de pessoas. No Brasil, estimativas apontam que cerca de 7 milhões de mulheres convivem com a doença, muitas delas sem diagnóstico.
Segundo a médica, o principal sinal de alerta é a dor. “A dor pélvica é o sintoma mais importante. Ela pode aparecer como uma cólica menstrual muito intensa ou até fora do período menstrual. E é importante entender: sentir dor não é normal. Se tem dor, precisa investigar”, explica.
Além da cólica forte, outros sintomas também merecem atenção: sangramento menstrual em grande quantidade ou por muitos dias, dor durante a relação sexual, especialmente aquela dor mais profunda, dor ao urinar ou evacuar durante o período menstrual e até dificuldade para engravidar. “Muitas vezes, esses sinais aparecem juntos. A mulher que sente muita dor, sangra muito e tem dificuldade para engravidar precisa ser investigada para endometriose”, reforça.
Apesar de ser uma doença comum, o diagnóstico ainda costuma demorar. Isso acontece, principalmente, porque por muito tempo a dor foi normalizada. “Muitas pacientes escutaram ao longo da vida que era normal sentir cólica, que isso ia melhorar depois da primeira relação ou após ter filhos. E não é assim. Isso atrasou muito o diagnóstico de muitas mulheres”, destaca a ginecologista.
Hoje, além da avaliação clínica, existem exames específicos que ajudam a identificar a doença, como a ressonância magnética da pelve e a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal, voltada para o mapeamento da endometriose. Exames comuns, muitas vezes, não conseguem detectar o problema.
Outro ponto importante é que, mesmo após cirurgia, a endometriose pode voltar. Por isso, o tratamento precisa ser contínuo e envolve também mudanças no estilo de vida. “A atividade física regular ajuda muito na melhora dos sintomas. A alimentação também é fundamental, quanto mais anti-inflamatória, melhor. Evitar excesso de açúcar e alimentos industrializados faz diferença, porque tudo que inflama o corpo pode aumentar a dor”, orienta.
Em Coruripe, a rede municipal de saúde tem buscado acolher essas mulheres desde o primeiro atendimento nas Unidades Básicas de Saúde, com encaminhamento para acompanhamento especializado quando necessário. O cuidado contínuo tem feito diferença na vida de quem, por muito tempo, não se sentiu ouvida.
Aos 26 anos, Stefanny Sayanara ainda está em processo de investigação, mas já sente os impactos da mudança de olhar sobre a própria saúde. Durante muito tempo, ela acreditou que a dor era algo comum, como tantas outras mulheres também pensam.
“Eu sinto dores muito fortes, principalmente no período menstrual. Tinha dias em que é difícil até levantar da cama ou continuar as atividades normais. Por muito tempo achei que isso fazia parte, que era normal sentir cólica assim. Só depois, com o atendimento aqui no município, comecei a entender que não precisava viver com essa dor. Hoje estou investigando, fazendo os exames, a ginecologista já passou medicação e já me sinto mais acolhida e mais esperançosa de conseguir um diagnóstico e melhorar minha qualidade de vida”, destacou a paciente.
O principal recado, segundo a especialista, é simples e poderoso: não normalizar a dor. “Se tem dor, procure ajuda. A gente consegue investigar, tratar e melhorar a qualidade de vida. Ninguém precisa viver com dor, então procure sua Unidade Básica de Saúde, que o médico irá fazer o encaminhamento para um ginecologista e dar andamento no tratamento”, finalizou a médica.
O Março Amarelo é, acima de tudo, um convite para que as mulheres se escutem com mais atenção e deixem de naturalizar o sofrimento. Em Coruripe, a orientação é clara, se algo não vai bem, procure uma unidade de saúde. Porque viver com dor não deve ser rotina, e buscar ajuda pode ser o primeiro passo para mudar essa história.
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