fonte: Coruripe.al.gov.br
Texto: Anne Rose/ Fotos: João Alexandre
Para algumas pessoas, chegar até uma unidade básica de saúde faz parte da rotina. Para outras, sair de casa pode representar um desafio enorme. É o caso de pacientes acamados, com mobilidade reduzida, doenças crônicas, feridas extensas ou que retornam para casa depois de longos períodos de internação e ainda precisam de acompanhamento especializado. Em Coruripe, para essas pessoas, o cuidado percorre outro caminho: chega até a porta de casa.
É essa a missão do Programa Melhor em Casa, que é uma iniciativa do Sistema Único de Saúde (SUS), coordenada pelo Ministério da Saúde, que oferece atendimento domiciliar a pacientes que necessitam de cuidados de saúde e têm dificuldade ou impossibilidade de se deslocar até uma unidade. Em Coruripe, o serviço é executado pelo município, dentro das diretrizes do programa federal, com equipe multiprofissional que acompanha os pacientes em suas residências.
Com uma equipe multiprofissional, o serviço leva atendimento médico, de enfermagem, fisioterapia, nutrição, psicologia, odontologia e assistência social diretamente aos pacientes. Somente entre janeiro e junho de 2026, foram 3.486 atendimentos domiciliares. Por trás desse número, existem histórias de famílias que passaram a contar com apoio no momento em que mais precisavam, e de pacientes que encontraram, dentro da própria casa, condições para voltar a fazer coisas que pareciam ter ficado para trás.
Uma nova chance depois de um acidente
Aos 48 anos, Maria José Pinheiro de Morais viu a rotina mudar completamente depois de um acidente de trânsito ocorrido em São Paulo, em janeiro deste ano. Ela estava na garupa de uma motocicleta quando o veículo foi atingido por um carro.
O acidente provocou fratura no fêmur, lesões no tornozelo e no braço. Durante a internação, Maria ainda sofreu um AVC, passou por cirurgia e enfrentou outras complicações que prolongaram sua permanência no hospital. Quando voltou para Coruripe, no início de abril, estava debilitada, com pouca força nos braços e pernas e dependente de outras pessoas para realizar atividades básicas.
“Eu estava muito para baixo, debilitada, sem esperança de nada. Tudo me causava irritação. Eu não queria que ninguém ficasse com dó de mim”, lembra.
Foi nesse momento que a família procurou o Melhor em Casa. A equipe iniciou o acompanhamento na residência e passou a trabalhar de forma integrada na recuperação de Maria, com fisioterapia, psicologia, nutrição, enfermagem e atendimento médico. Segundo a fisioterapeuta Gabriela Lessa, o objetivo inicial era recuperar força, mobilidade e, principalmente, a independência para as atividades do dia a dia. Aos poucos, os resultados começaram a aparecer.
Hoje, Maria já consegue tomar banho, ir ao banheiro sozinha, chegar até a cozinha, pegar água e café e se locomover com o auxílio de um andador. O próximo objetivo é caminhar sem o equipamento. “É muito bonito ver como ela chegou e como está evoluindo. Foi uma situação grave, mas ela está retomando as atividades da vida diária”, destaca Gabriela.
Para Maria, cada pequena conquista ganhou um significado enorme. Ela diz que já recuperou cerca de 80% da condição física e, principalmente, voltou a ter vontade de viver. “Hoje eu me sinto outra pessoa. Tenho vontade de fazer as coisas”, afirma.
Mais do que o atendimento, Maria destaca o vínculo construído com os profissionais que passaram a fazer parte de sua rotina. “Quando eu as vejo, sinto como se fossem da minha família mesmo. Uma família que me acolheu. Eu abracei todas elas, uma por uma. De todas eu precisei e preciso”, conta com lágrimas nos olhos.
Cuidado que também alcança a família
Aos 97 anos, Terezinha Rocha chegou ao Melhor em Casa depois de passar por uma cirurgia de hérnia e enfrentar um período de internação que a deixou debilitada. Antes disso, segundo a filha, Ana Lúcia Rocha, ela ainda caminhava e mantinha certa independência.
Após a cirurgia, uma ferida passou a preocupar a família. Com o acompanhamento do programa, Terezinha recebeu cuidados de enfermagem, curativos e acompanhamento de diferentes profissionais, de acordo com as necessidades identificadas durante as visitas.
“Antes a gente pensava que nunca ia sarar essa ferida. Quando começou com o Melhor em Casa, foi bem diferente. Foi mais rápido. Os materiais que eles usavam, a cobertura, tudo ajudou na cicatrização. E teve também o cuidado, o amor e o carinho”, relata Ana Lúcia.
O tratamento também precisou olhar para o emocional. Com a perda de mobilidade, Terezinha passou a ter medo de andar e chegou a perder a esperança. O acompanhamento psicológico ajudou a recuperar a confiança.
Hoje, já recuperada e após receber alta do programa, ela resume a experiência de forma simples: “Mudou minha vida. Melhorei 100%. Gostei muito de todos.”
Para a família, a experiência mostrou que o cuidado domiciliar vai além do tratamento de uma doença ou de uma ferida. É também uma forma de oferecer segurança e orientação para quem acompanha o paciente diariamente.
Um cuidado feito por muitas mãos
A coordenadora do Melhor em Casa, Symara Oliveira, explica que cada paciente passa por uma avaliação antes de entrar no programa. A equipe vai até a residência para conhecer a realidade da família, identificar as necessidades e definir o nível de acompanhamento necessário por meio de um questionário.
“Todos os pacientes que são solicitados para avaliação, a gente vai até a casa e faz essa avaliação. A partir dela, conseguimos identificar a necessidade e a complexidade de cada paciente e definir qual será o acompanhamento”, explica.
O serviço atende pacientes em diferentes situações, incluindo processos de reabilitação, tratamento de feridas, cuidados contínuos e cuidados paliativos. O olhar da equipe, porém, também se estende aos familiares responsáveis pela rotina de cuidados.
“Muitas vezes, a família está sobrecarregada, cansada, estressada. A gente também faz esse acompanhamento, porque, para o paciente ter o melhor atendimento, precisamos cuidar de quem cuida dele”, destaca Symara.
No primeiro semestre de 2026, foram registrados 3.486 atendimentos domiciliares: 1.023 de técnicos de enfermagem, 792 de enfermeiros, 420 de fisioterapeutas, 393 de psicólogos, 297 médicos, 235 de nutricionistas, 224 odontológicos e 102 de assistentes sociais.
Os números mostram a dimensão do trabalho, mas a proposta vai além da soma de atendimentos. A atuação integrada permite que uma necessidade identificada durante uma visita seja compartilhada com outro profissional, garantindo que diferentes áreas trabalhem em conjunto pela recuperação e pelo bem-estar do paciente.
Uma saúde que chega até as pessoas
Para o secretário municipal de Saúde, Maykon, o Melhor em Casa representa uma forma de ampliar o acesso à saúde para quem enfrenta dificuldades para chegar até uma unidade.
“O Melhor em Casa representa a saúde que vai até o cidadão. Temos pacientes que, pela própria condição de saúde, não conseguem chegar facilmente a uma unidade. Então, levar uma equipe multiprofissional até essas pessoas é garantir acesso, cuidado e dignidade. Por trás dos 3.486 atendimentos, existem famílias que estão recebendo apoio e pacientes que estão tendo a oportunidade de serem cuidados dentro da própria casa”, destacou o secretário.
O prefeito Marcelo Beltrão destaca que o atendimento domiciliar também representa acolhimento para as famílias que enfrentam momentos de maior dificuldade.
“Quando a gente fala em saúde pública, estamos falando de pessoas. O Melhor em Casa tem justamente esse propósito: chegar até quem muitas vezes não consegue chegar até uma unidade de saúde. É um trabalho que leva atendimento, mas também leva acolhimento e tranquilidade para as famílias. Nosso compromisso é continuar fortalecendo a saúde de Coruripe e garantindo que o cuidado chegue a quem mais precisa”, ressaltou o gestor.
Muito mais que 3.486 atendimentos
Os 3.486 atendimentos realizados nos primeiros seis meses de 2026 ajudam a dimensionar o alcance do Melhor em Casa. Mas há resultados que não cabem nas estatísticas.
Estão nas pequenas conquistas de Maria, que voltou a caminhar pela própria casa e recuperou a vontade de viver. Estão no alívio de Ana Lúcia ao ver a ferida da mãe cicatrizar e na confiança recuperada por Terezinha. Estão também nas famílias que passaram a dividir o peso do cuidado com uma equipe preparada para acompanhar cada etapa do processo.
Para Symara Oliveira, são justamente essas conquistas que dão sentido ao trabalho. “Para muitos parece uma coisa pequena, mas, para nós enquanto equipe, para a família e para o próprio paciente, esse tipo de evolução é muito gratificante de acompanhar”, encerrou a coordenadora.
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